Comida rápida e barata em Londres

A imprensa inglesa vem debatendo constantemente o problema da obesidade, que já é encarada no país como uma questão séria. Jamie Oliver faz de sua luta contra ela a sua bandeira, redes como McDonalds são tratadas como grandes inimigos da saúde, mas ninguém parece prestar muita atenção ao fato de que os londrinos almoçam sanduíches durante toda a semana.

Não trabalhamos em Londres durante nossa viagem, então não sei explicar as razões desse costume. É porque a comida é muito cara? É falta de tempo? A comida é ruim mesmo, então pra que se dar ao trabalho? Mas percebe-se na cidade que, em horário de almoço, os restaurantes que estão cheios são os que atraem os turistas. Enquanto isso, os ingleses que estão em pleno expediente vão se acotovelar nas geladeiras dos mercados e das redes de comida pronta.

A rede Pret a Manger é a mais popular. Oferece várias opções de sanduíches em pão de forma ou baguete, sopas, algumas saladas e frutas frescas a preços exorbitantes.

A comida fica à disposição do cliente, em geladeiras abertas. Os londrinos passam por elas correndo, pegam o almoço quase sem olhar (segundo pesquisa, um terço deles pega todo dia o mesmo lanche), pagam no caixa e somem na multidão. Para comer no local, geralmente pequeno e com poucas mesas, o lanche custa mais caro. A etiqueta na geladeira mostra os dois preços, não se deixe enganar.

Os lanches do Pret custam em torno de três libras e trazem, nas etiquetas, a quantidade de calorias. Eles parecem gostosos no começo e, pela praticidade e pelo preço honesto, você pode transformar em rotina o ato de comer ali. A promessa da rede é  oferecer somente produtos frescos e você se engana com aquele pouco de salada fingindo que está sendo saudável. Com o tempo, no entanto, você vai percebendo que tudo ali tem muita gordura, muita maionese, e a grande maioria deles têm, no fundo, o mesmo gosto.

Não vou mentir, mesmo depois de perceber tudo isso continuei comendo muito por lá. A baguete de queijo brie e tomate se tornou a favorita, por ser uma das poucas que não se afogava em maionese nem mostarda. As sopas, que deveriam ter durado apenas o inverno, continuaram a ser oferecidas pelo verão afora por causa das baixas temperaturas, e algumas delas eram bem saborosas.

Quase sempre perto de um Pret há um Eat. Trata-se de outra rede muito, muito parecida, mas um pouquinho mais cara. As opções de sanduíches são basicamente as mesmas com muita maionese, presunto, queijo cheddar, alface, atum, salmão, queijo brie com tomate. Mas aqui as coisas são um pouco mais caras, provavelmente só para pagar a decoração e iluminação mais caprichadas. A diferença no preço nunca me convenceu, então fui pouco.

Há sanduíches ainda mais baratos nos mercados. Tesco, Sainsbury’s e Marks & Spencer sempre têm, logo na entrada, as suas geladeiras de lanches “take away”.

Os cafés Nero, Starbucks e Costa também aproveitam o filão dos sanduíches do almoço. Vendem lanches em pão de forma, mas suas melhores opções são os paninis no ciabatta. No Nero, nossos favoritos eram o de mussarela, tomate e manjericão e o de almôndegas. No Costa, o de frango com pesto era o melhorzinho, mas em todos eles sobrava pão seco e faltava recheio. Mas a pior opção para almoço é, sem dúvida, os lanches do Starbucks. Não perca seu tempo ou seu dinheiro.

Esses três últimos, contudo, têm a desculpa de serem cafés. Em sua especialidade, o Nero foi, desde o início, o que mais nos agradou. Seus doces são deliciosos, especialmente os muffins (o de framboesa com chocolate branco e o de blueberry me arrancam suspiros saudosos de vez em quando). O cheesecake de chocolate amargo e chocolate branco também é uma lembrança boa e o shortbread de caramelo me salvou de uma larica imensa numa tarde fria.

Não sei explicar, mas lá o café feito no Starbucks é melhor do que o servido aqui no Brasil. E das guloseimas oferecidas na vitrine, o bolo de cenoura de lá foi o melhor que comi em toda a viagem.

Já o Costa, que diz ter o melhor café do país, decepciona em tudo, bebidas e comidinhas.

Infelizmente não tiramos foto de nenhum desses lugares, mas uma pesquisa rápida no Google mostra como eles são.

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Banheiros de Londres

O turista comum enfrenta o mesmo problema em qualquer lugar do mundo aonde vá: onde encontrar um banheiro no meio do dia. Ele sai do hotel/apartamento pela manhã com uma longa lista de lugares para visitar e coisas para fazer. Passa o dia na rua, andando para lá e para cá, e acaba dependendo de banheiros desconhecidos durante toda a viagem.

Como São Paulo, Londres quase não possui banheiros públicos, obrigando os turistas a recorrer aos toaletes das atrações turísticas, restaurantes e cafés. Depois de alguns meses na cidade, aprende-se aonde ir e não ir.

Os ingleses se destacam em muitos campos sociais e culturais, mas limpeza e higiene não então entre seus pontos fortes. Portanto, não espere encontrar banheiros limpos pelo centro da cidade, mas prometo que nem tudo vai se parecer com o “pior banheiro da Escócia”.

O mais comum na hora do aperto depois daquele suco de laranja do café da manhã é se esgueirar McDonald’s adentro e usar as facilidades sem gastar um centavo. Mas muitas outras pessoas estarão fazendo a mesma coisa que você, portanto saiba que vai enfrentar uma fila. O mesmo acontece no Burguer King, KFC, Pret a Manger e todas essas lanchonetes fast food onde não há controle na entrada e saída de clientes. É uma solução rápida, mas, com todas essas visitas grátis, nenhum banheiro desses estará minimamente limpo.

Em Londres, há numerosos cafés Nero, Costa e Starbucks. Menores e com menos movimento, nem todos oferecem banheiros aos seus clientes e é sempre mais difícil entrar sem ser notado. Como consequência do movimento mais controlado, os banheiros são um pouco menos sórdidos. Talvez seja preciso gastar duas libras em um café ou em um muffin para justificar a ida àquele cantinho da casa. Os muffins de blueberry do Nero são absolutamente deliciosos, então pode até valer a pena.

Se você estiver próximo a um dos grandes museus com entrada gratuita, corra até eles. Eles são sempre bem aceitáveis. Para garantir uma experiência ainda melhor, procure dentro dele uma exposição pouco interessante e ali você encontrará um banheiro vazio e limpíssimo (para os padrões britânicos). No banheiro localizado logo à entrada da National Gallery, na Trafalgar Square, por exemplo, peguei fila. Já no canto grego do British Museum, mesmo perto de um café, só dava eu (quase tão bom quanto o banheiro impecável de um canto esquecido do Louvre onde senti como se fosse a primeira pessoa a pisar o dia todo).

Se o dia é dia de compras, é bom saber que as grandes lojas de roupa –H&M,Topshop, Zara, Primark- não têm banheiros. Já as lojas de departamentos têm. No caso da Selfridges, na Oxford Street, eles ficam beeeem escondidos, mas procurando dá para achar.

Mas foi a Marks & Spencer, rede britânica gigante, que me salvou muitas vezes nesses meses que passei andando pela cidade e mesmo nos outros cantos da Grã-Bretanha que visitei. A rede é conhecida tanto por vender roupas de senhoras de respeito quanto pelas boas comidas prontas e é aí, na seção de alimentos, que ficam os banheiros. Eles só não existem nas lojas muito pequenas, que são realmente poucas. No geral, procure pelo Food Hall e eles estarão lá.

Comida de rua

Estou devendo há muito tempo um post sobre as deliciosas feiras de comida de rua de Londres, mas estava esperando o Uol publicar minha matéria sobre o assunto.

Aproveitando finzinho dos Olimpíadas, a matéria foi publicada na última sexta-feira. Pretendo escrever depois um post falando mais sobre elas, mas por enquanto segue um trechinho e o link para a matéria completa:

Barraca italiana no Real Fodd Market, em Londres

Barraca italiana no Real Fodd Market, em Londres

De brownies a embutidos, mercados de rua de Londres têm explosão de cores e sabores

Visitar uma feira de comida em Londres é uma das experiências mais divertidas, saborosas e baratas que se pode ter na capital inglesa. Nelas, o aspecto multicultural da cidade é ampliado e celebrado no encontro da culinária de países diversos.

Leia mais no Uol

Dicas para quem vai estudar inglês em Londres

Fazer um bom curso de inglês em Londres não é tão fácil quanto pode parecer. É necessário muito cuidado na hora de escolher as escolas, pois nem as que são chanceladas pelo governo britânico são garantia de qualidade. O centro abriga a maioria delas, mas, se pesquisar com calma, pode encontrar outras opções em bairros mais afastados.

Além de procurar as escolas que tenham alguma referência, é preciso estar disposto a tentar as aulas gratuitas que todas oferecem (geralmente é apenas uma “trial-lesson”). Por que todos estes avisos e ressalvas? Porque tivemos algumas experiências desagradáveis, como professor que sabe menos do que o aluno, professor racista que é odiado por estudantes e, claro, o problema mais comum: os testes de nível são mais toscos do que nas escolas de idiomas em São Paulo, por exemplo. Variam de uma “provinha” com múltiplas alternativas a simples conversas para testar seu nível. O fato é: você pode ser colocado numa classe avançada ao lado de um japonês que não consegue construir uma simples frase com o verbo “to be”. Porque, no fundo, o que importa é o dinheiro (sim, é óbvio).

E haja paciência. Porque quem já fez qualquer curso deste tipo sabe que há uma avalanche de momentos constrangedores nas conversas propostas para treinar o idioma. E, quanto mais velho você está, mais constrangido fica. Mas, se decidiu entrar nessa, engula o constrangimento e siga em frente. Ser obrigado a conversar diariamente com estranhos ainda é a melhor forma de treinar e aprimorar seu inglês.

Portanto, se pretende estudar inglês em Londres, teste grátis umas quatro escolas, veja qual o livro usado (muitas vezes a escolha é do professor) e o nível da turma. A maioria dos estudantes são jovens recém-formados da União Europeia que vão a Londres na base do “papai me sustenta” e estão mais a fim de diversão do que de aprender inglês.

Apesar de todos estes “contras”, há dois prós básicos e óbvios: professores britânicos falam como os britânicos (claro) e não em ritmo de “Mobral” como professores de inglês no Brasil (mesmo estrangeiros). Além disso, você é obrigado a se fazer entender o tempo todo por gente que não fala uma palavra em português e isso te força a melhorar o vocabulário. Aliás, evite ficar rodeado de brasileiros. No centro de Londres, pelo menos, a maioria absoluta é de italianos (parece que a crise fez todo mundo querer aprender inglês), seguidos por espanhóis. Recomendo fazer uma imersão desta o quanto antes. Além de ser mais fácil aprender quando o seu cérebro ainda é jovem, a paciência para este tipo de curso é inversamente proporcional à idade.

Professores

Eu fui a Londres com a ideia errada de que melhoraria meu inglês com professores de formação indiscutível, extremamente preparados. Bobagem. Há todos os tipos de professores, inclusive gente bem ignorante (sobre a vida e o mundo). A maioria é gente que fez outra faculdade, não se deu bem ou não quis seguir a carreira escolhida, e acabou indo dar aula de inglês. Até aí, tudo bem. O problema é que, em geral, eles são desinteressados, apenas cumprem os protocolos. Eu sou do tipo que ainda acha que ensinar é um dom. Portanto, escolha bem, mas não se iluda: estar na cidade e ser obrigado a falar inglês o tempo todo é tão importante quanto as aulas. Vá além da escola, busque aprender por conta própria e estude em casa. E cuidado com a quantidade de imigrantes que estupram a língua: tem gente que passa a vida inteira em Londres e não fala inglês, grunhe erros. Seguindo este raciocínio, trabalhar pode ajudar ou atrapalhar. Depende de quem estará ao seu lado no dia-a-dia da labuta. E, se você não sabe, 50% da população londrina não nasceu lá. É o velho clichê da “torre de babel”.

Callan Method

Algumas escolas ensinam o “Callan Method”, um método baseado em audição e repetição, seguindo o conceito com que bebês aprendem a falar. A teoria é boa, mas ninguém tem um ou dois anos na sala de aula. Portanto, na prática, ajuda a melhorar o ouvido e a pronúncia, principalmente. Mas não há conversação e a pouca gramática, escassa, é bem desatualizada.

O livro é arcaico porque foi escrito por um veterano da Segunda Guerra Mundial (o tal Callan) que desenvolveu este método para se comunicar com soldados de outros países. Por conta disso há muitas expressões antigas no livro, além de uma morbidez desnecessária. Você vai aprender vocabulário inútil, pode ter certeza. Se você já tem bom ouvido, nem vale a pena. Se não, faça um pouco, mas não faça só este método: tente também o tradicional. Há escolas, como a ABC School of English, que combinam os dois métodos. (O mais comum, neste caso, é fazer três horas matutinas de curso tradicional e duas horas vespertinas de Callan).

Horários

Geralmente as escolas têm aulas em três períodos: matutino (começam entre 8h e 9h e vão até 12h), vespertino (12h30 a 15h30) e vespertino/noturno (15h30 a 18h30). O matutino é o mais caro, até porque quem quer trabalhar geralmente procura estudar de manhã. O mais barato é o que começa às 15h30. A básica lei de mercado oferta x procura.

Visto de estudante

Se não tem passaporte europeu, recomendo que tire um visto de estudante antes de ir. Isso deve ser feito com mais de três meses de antecedência. Além de evitar o interrogatório na imigração, você pode conseguir a permissão para trabalhar meio-período, fundamental para sobreviver Londres, que tem altíssimo custo de vida. Exige-se um nível mínimo de inglês para o tal visto, mas fique tranquilo: vi cada analfabeto com este visto que, se eles conseguiram, você, meu caro leitor, também vai conseguir.

Clique aqui para mais informações sobre o visto de estudante

Veja a lista de escolas

Manchester em dois dias

Manchester é laranja. Saindo da estação de trem Manchester Piccadilly após quase três horas de viagem essa foi a primeira impressão que a cidade me passou. Suas construções, históricas ou contemporâneas, impõem-se à paisagem em tons fortes de vermelho, um pouco de marrom e algum amarelo. Na visão geral, é laranja.

Manchester

Manchester

Manchester está localizada no noroeste da Inglaterra, bem próxima a Liverpool (para onde já tínhamos ido algumas semanas antes), e foi a primeira parada de uma viagem de uma semana para o norte da Grã-Bretanha.

De cara, a cidade mostra que é mais animada e urbana que Liverpool, mesmo sendo apenas um domingo. É mais musical também, com grandes lojas de instrumentos e – pelo que pudemos ver nessa passagem curta –  uma agitada vida noturna, com festas e pequenos shows acontecendo todas as noites. Nada muito diferente do que se espera de uma região que deu ao mundo bandas tão diversas quanto Joy Division e Happy Mondays, Smiths e Stone Roses, New Order e Oasis.

A viagem de trem custou 25 libras por pessoa, saiu de Londres às 8h10 e terminou no fim da manhã. Com as mochilas nas costas, passeamos pelo centro da cidade, caímos por acaso no Gay Village, deserto e com ar de ressaca, e almoçamos em um pub barato e honesto. No geral, gasta-se menos para comer lá do que em Londres.

Após deixar as malas no hotel, contrariando qualquer lógica, voltamos à estação e pegamos outro trem, mas não fomos longe. O destino era Macclesfield, cidade de 50 mil habitantes que faz parte da Grande Manchester. O motivo: visitar o túmulo de Ian Curtis e a casa onde ele se matou.

Curtis cresceu em Macclesfield, continuou morando ali após se casar e mesmo depois que começou a fazer sucesso com o Joy Division. Em 1980, ele se enforcou em sua casa em Barton Street e foi enterrado ali perto, no Macclesfield Cemetery.

Túmulo de Ian Curtis, em Macclesfield

Túmulo de Ian Curtis, em Macclesfield

A viagem de trem dura cerca de 20 minutos e pode ter preços variados. Macclesfield não é o destino final de nenhum trem, é apenas uma parada, então é preciso escolher a viagem a prestar atenção em qual trem pegar. O nosso tinha Londres como destino final, mas esse trecho custou apenas cerca de 3 libras por pessoa.

Da estação de trem, seguimos primeiro para o cemitério por avenidas movimentadas em um passeio desagradável, não tinha mais ninguém andando a pé por aqueles cantos. Chegamos ao local sem indicações de onde estava o túmulo de Ian, contando que o cemitério seria pequeno e que encontraríamos a informação lá. Ledo engano. O lugar é imenso e não havia ninguém lá, nem um funcionário sequer. Nada.

Entramos pelo cemitério já desanimados, procurando pelo túmulo sem qualquer rumo e sem muita esperança de encontrá-lo. E depois de uns 10 minutos procurando, ele apareceu na nossa frente de repente, sem aviso, e uma tristeza enorme me pegou de surpresa no mesmo segundo. Ele se colocou diante de nós como a morte sem glamour, sem poesia. É apenas uma pedra rente ao chão, igual em tamanho a todas as outras ao redor. Como inscrição, o nome de Curtis, a data de sua morte e a frase “Love will tear us apart”. Sobre ele, moedas, fotos, bijuterias e um maço de cigarros. Me arrependi de não ter levado flores para deixá-lo um pouco mais bonito. Agradeci a Ian pelas músicas que ele fez, lamentei as que ele não fez e saí de lá com um nó na garganta.

O túmulo está no “plot M” do cemitério, é a única indicação que consigo dar para quem quiser visitá-lo.

Seguimos por ruas residenciais estreitas e desertas por cerca de 20 minutos até o número 77 da Barton Street. A casa de esquina, local onde ele se enforcou, tem novos moradores. Um carro estava parado em frente, as janelas estavam fechadas com cortinas e não existe número na porta – obviamente para espantar os fãs que, como nós, fazem visitas indesejadas.

De volta a Manchester, encaramos um jantar satisfatório no restaurante Pesto, uma rede que oferece comida italiana em pequenas porções para dividir (matei um pouco da saudade de bolinhos de arroz com uma porção gostosa de arancinis) e seguimos para o hotel. Tínhamos acordado muito cedo para pegar o trem e não sobrou disposição para conhecer a vida noturna da cidade.

The Haçienda Apartments, em Manchester

The Haçienda Apartments, em Manchester

O dia seguinte, uma segunda-feira, foi de passeios curtos pelo centro da cidade. Manchester possui diversos museus e prédios históricos, mas não fomos lá para isso. Até entramos rapidamente na Catedral de Manchester e circulamos, também sem nos alongar muito, no interior do belo prédio da prefeitura, inaugurado em 1877 (ambos com entrada gratuita). Almoçamos ali dentro, em um pequeno café e restaurante com enormes poltronas confortáveis, comida quente e preços justos. Meu caldo de cogumelos e queijo Stilton caiu bem, já que o clima lá ainda estava frio em pleno verão.

Além dessas duas construções que o guia nos mandava conhecer, fomos atrás dos nossos próprios pontos obrigatórios. A esquina da Whitworth Street com a Albion Street, onde costumava existir o clube Haçienda e hoje há o prédio residencial The Haçienda Apartments; o Free Trade Hall, onde os Sex Pistols fizeram o show que mudou a cena musical da cidade em 1977; o Northern Quarter, bairro mais musical e boêmio da cidade repleto de lojas de CD e vinil.

Em alguns pontos, onde brilham prédios extremamente modernos e de arquitetura ousada, a cidade se mostra menos laranja. Por outro lado, o principal meio de transporte no centro da cidade é o antigo bonde elétrico. Não existe metrô.

À noite, fomos ao Castle Hotel no mesmo Northern Quarter ouvir música e tomar cerveja. Em seu site, o pequeno pub diz que existe desde 1776 e que entrou definitivamente para a história de Manchester quando John Peel conduziu ali uma “lendária” entrevista com Ian Curtis. Um show da cantora folk Emily and the Woods estava na agenda. Tudo pareceu bom.

O lugar tem um clima amistoso e animado, mas é bastante pequeno. O balcão, forrado de azulejos vitorianos, tem não mais do que quatro metros. Em frente, duas mesas pequenas deixam o local cheio. Atrás do balcão, há outro ambiente com mesas e cadeiras (e um piano e uma lareira só para decoração, puro charme) e, mais ao fundo, uma sala fechada para shows, sem lugar para sentar. Cansados de andar o dia todo, acabamos sentando com nossos pints e deixamos o show de lado.

Na manhã seguinte, partimos rumo ao norte.

Northern Quarter – ruas ao redor de Oldham Street
The Haçienda / The Haçienda Apartments – Whitworth Street com Albion Street
Macclesfield Cemetery – Prestbury Road, Macclesfield
Casa de Ian Curtis – 77 Barton Street, Macclesfield
Casa de infância de Morrissey (que não tivemos tempo de conhecer) – 384 Kings Road
Castle Hotel – 66 Oldham Street

Camden Market

Camden Town possui a fama de ser o bairro mais boêmio de Londres e seus grandes mercados de roupas, acessórios, artesanato e objetos de decoração a preços atraentes viraram há anos ponto de referência. Todo guia aponta essas feiras como ponto imperdível na hora das compras.

Roupas em exposição no Camden Market; peças para um público específico estão cada vez mais raras

A triste verdade, no entanto, é que a reputação dos mercados foi construída em um passado que é recente, mas que realmente passou. Provavelmente graças a esses mesmos guias que começaram a mandar todo turista para aquelas bandas.

Hoje os mercados de Camden se voltaram para esse público, ou seja, se tornaram redundantes e caros.

Os mercados de Camden são diversas feiras espalhadas ao longo da Camden High Street. Andar por elas é atravessar uma longa sequência de barracas de camisetas de bandas, com ilustrações de street art (muito Banksy) ou com frases engraçadinhas, toneladas de vestidos idênticos (versões de baixa qualidade dos vestidos da moda nas grandes lojas de departamento), agasalhos esportivos com nomes de universidades inglesas, quadros com “cenas” de Londres, placas metálicas com nomes de rua e pôsteres de filmes e música, tudo sempre igual.

Camisetas à venda no Camden Market; mesmas estampas para todo lado

As roupas para o público punk, gótico e afins, que há menos de quatro anos (na minha primeira visita) ocupavam uma parte significativa das lojas, estão aos poucos desaparecendo.

Fora dos mercados, no trecho da rua que leva da estação de metrô Camden Town até a área mais agitada, as lojas são de óculos de plástico com armação colorida, capas para celular e lembrancinhas: as mesmas miniaturas de ônibus de dois andares e Big Ben fáceis de encontrar em qualquer rua turística da cidade. Os poucos tatuadores que sobraram quase desaparecem na paisagem.

Há ainda diversas barracas de comida, concentradas principalmente no Stables Market e no Camden Lock, mas é preciso dizer: elas fazem as comidas mais feias que vi em todas as feiras de rua de Londres até agora.

Roupas para bebês metaleiros no Camden Market

Com tudo isso em mente, os mercados de Camden ainda valem uma visita? Valem, sem muita expectativa. Em todo o mercado restam ainda algumas lojas e barracas que fogem do lugar comum e com paciência é possível encontrar uma ou outra coisa interessante.

Evite o fim de semana, quando a quantidade de pessoas é tão grande que torna a circulação quase impossível.

O Stables Market ocupa o espaço que costumava ser usado como estábulo há muitas décadas e tem seu charme, com um reduzido número de lojas com objetos vintage.

Para quem quer levar pôsteres e placas para decorar a parede de casa, há ilustrações interessantes. O preço começa em 7 libras, mas pode subir bastante dependendo do material e do tamanho.

Há também algumas poucas barracas de CDs e discos de vinil. Os CDs são caros, com preços acima dos cobrados nas grandes lojas. Quanto aos vinis, não sei dizer se os preços são justos.

Para completar o passeio com um toque mórbido, a casa onde Amy Winehouse morreu, em Camden Square, fica a cerca de 15 minutos dali. É so procurar o caminho no Google Maps e passear até lá.

A Liverpool dos Beatles

Acho que sempre imaginei que ouviria Beatles assim que chegasse a Liverpool. Mas quando desci do trem e dei meus primeiros passos na cidade, não havia música nenhuma no ar. Saímos da estação e andamos mais alguns metros em direção ao centro da cidade. Nada ainda. Mais um, dois, três quarteirões. Finalmente começamos a ouvir música: eram flautas andinas tocando “My Heart Will Go On”. Será que eu estava no lugar errado? Ou era só a cidade querendo me dizer que é mais do que Paul, John, George e Ringo?

Demorou quase uma hora para a primeira menção a Beatles, no Albert Docks, com seu museu e suas lojas de lembrancinhas entulhadas de imãs, chaveiros, camisetas, canecas, porta-copos. Depois disso, era Beatles pra todo lado.

Casa de infância de John Lennon, em Liverpool

Casa de infância de John Lennon, em Liverpool

A cidade é cheia de ônibus amarelos como o de Magical Mystery Tour que levam fãs para os pontos de peregrinação. Pelo pouco que vimos, eles passam em frente aos lugares, dão uma paradinha breve, mas ninguém desce. Há também diversos carros pretos, cada um com um nome de música diferente, que realizam excursões mais personalizadas. Pela internet, deve ser fácil encontrar e contratar esses serviços, mas não tenho detalhes para dar porque desde o princípio eu quis fazer tudo por minha conta.

As casas onde os quatro Beatles passaram a infância estão lá. Como tínhamos só um fim de semana, deixei George e Ringo de lado. Fica para a próxima.

As casas das famílias de John e Paul ficam longe do centro, mas próximas uma da outra. A pé, a caminhada dura cerca de meia hora. No mesmo bairro ficam a igreja onde eles se conheceram e onde está o túmulo de Eleanor Rigby e o velho orfanato Strawberry Field. Fomos até lá de taxi – do nosso hotel, que não fica no centro, era o modo mais barato de chegar.

Casa de infância de Paul McCartney, em Liverpool

Casa de infância de Paul McCartney, em Liverpool

Ambas as casas são sinalizadas por placas, mas para entrar nelas é preciso pagar 20 libras. Achei abusivo, não paguei. São casas comuns, que poderiam ser de qualquer pessoa, mas não foram, e estar ali despertou uma emoção diferente, uma sensação boa difícil de explicar. E mais do que olhar para as fachadas das casas, foi andar por aquelas ruas, percorrer a pé o trajeto que eles devem ter percorrido inúmeras vezes, que fez o coração bater mais rápido e mais feliz. E essa experiência as excursões em ônibus e táxi não proporcionam a ninguém.

Também a pé fomos para a St Peter’s Church, onde Paul conheceu John. Ali está o túmulo da família Rigby, encabeçada por John Rigby. O nome de Eleanor está no meio da inscrição, mas não é difícil encontrar. “Morreu em 10 de outubro de 1939, aos 44 anos, enquanto dormia”, diz a lápide.

Strawberry Field, em Liverpool

Strawberry Field, em Liverpool

E é em uma rua de propriedades grandes, fechadas atrás de muros (coisa rara por aqui) e cercadas de muito verde que encontramos o antigo orfanato Strawberry Field. Há duas entradas, uma com um portão simples e outra com o majestoso portão vermelho – hoje apenas uma réplica do original – onde fãs do mundo todo deixam mensagens.
Voltamos ao centro de ônibus, a partir da esquina da casa dos McCartney.

Na noite de sábado, a trilha dos Beatles nos levou ao Cavern Club. O clube original, onde os Beatles tocaram quase 300 vezes, foi demolido na década de 1970, e o que existe hoje está a alguns metros de distância de onde se encontrava o original. Dizem os proprietários que ele foi reconstruído com parte dos tijolos originais e com as mesmas proporções.

Todo sábado, uma banda cover residente faz uma apresentação. O show, no entanto, não acontece nesse ambiente que reproduz o original – tijolos, teto baixo  – e sim em um ambiente moderno ao lado. A banda é decente, mas fui tomada pela sensação de engodo. A insistência dos músicos da banda em se chamar pelos nomes dos originais só piorou o mal estar.

No dia seguinte, uma ida rápida a Penny Lane. Ela fica no meio do caminho entre o bairro onde a dupla cresceu e o centro da cidade, é curta e tem algumas poucas lojas. Em um dos seus extremos, há uma barbearia. Um dos carros pretos de excursão estava em sua porta quando chegamos. Esperei um bom tempo para tentar tirar uma foto sem o carro ali, mas ele parecia que não sairia nunca e acabei desistindo. O carro em questão era justamente o que se chamava Penny Lane. Very strange.

Casa de infância de John Lennon – Mendips, 251 Menlove Avenue
Casa de infância de Paul McCartney – 20 Forthlin Road
Para visitas às casas – Site National Trust
St. Peter’s Parish Church – Church Road
Strawberry Field – Beaconsfiled Road
Cavern Club – 10 Mathew Street, Liverpool