Vergonha

Em frente ao Imperial War Museum existe um pequeno jardim chamado Tibetan Peace Garden, inaugurado pelo Dalai Lama em 1999.

Tentamos ir ao museu na quinta-feira, estávamos no bairro com um tempinho de sobra e resolvemos dar uma espiada rápida. Por azar, ele tinha sido fechado mais cedo.

Saímos passeando pelo jardim ao redor do museu e descobrimos por acaso esse espaço. Pequenas flores brancas cobriam o gramado, um cachorro sem coleira passeava feliz por ali. Fora ele e sua dona silenciosa, estava tudo tranquilo.

Tibetan Peace Garden

Tibetan Peace Garden em frente ao Imperial War Museum

No centro do jardim, pequenos bancos de pedra formam um círculo ao redor de uma peça redonda de bronze. Fomos até lá e nos sentamos para “sentir a paz”.

Não durou muito. Em alguns minutos, chegou um trio de brasileiros – dois homens e uma mulher. Falando alto. “Vamos fazer umas fotos!”

Foto aqui, foto ali, dedinhos fazendo chifrinho em uma, paz e amor na outra. A nossa paz, no entanto, já tinha ido embora. Até que um dos caras resolveu fazer uma foto diferente. Foi para o meio do espaço, subiu na escultura central do jardim e ficou lá, em pé, fazendo pose.

EM PÉ!

Eu não sabia o que era aquela peça, mas era óbvio que não era apenas um palco para mais uma fotinho pro Facebook.

Descobri agora que se trata de uma mandala Kalachakra. “Apenas olhar para essa mandala confere um pouco de sua bênção e seu poder de transformação”, diz o site Tibet Foundation.

Como adeptos da não-violência que o lugar prega, levantamos e saímos de lá em silêncio.

Essa não foi a primeira vez que um grupo de brasileiros me envergonhou aqui com demonstrações de desrespeito e falta de educação. Mas foi, sem dúvida, a pior.

Etiqueta: guarda-chuva molhado

Me ensinaram desde pequena que guarda-chuva, quando molhado, deve ser guardado dentro de um saco plástico para não sair pingando por aí. De uns tempos para cá, os lugares mais simpáticos de São Paulo passaram até a ter os práticos saquinhos na porta para facilitar a vida das pessoas sempre que chove.

Aqui em Londres não tem nada disso. Choveu e molhou o guarda-chuva? Não se incomode, pode andar com ele pingando que tá tudo bem. As pessoas entram com eles molhados no metrô, nos mercados, nos museus.

Hoje fomos a uma exposição de fotos antigas de Londres em um museu bem longe do centro. O lugar estava bem tranquilo, com meia dúzia de pessoas. Um rapaz chegou a abrir o seu guarda-chuva no meio da exposição e deixá-lo lá secando enquanto ele olhava as fotos. E ninguém estranhou.

***

Foto de Charles Wilson mostra Piccadilly Circus em 1890

Foto de Charles Wilson mostra Piccadilly Circus em 1890

Há dias não para de chover nessa cidade e a previsão é de que continue assim por mais algumas semanas. Os museus estão lotados, os cafés, abarrotados. É preciso encontrar coisas legais para fazer em lugares fechados, mas fugindo das atrações mais óbvias.

Fomos então ao Wandsworth Museum ver a exposição “Portrait of London”, uma série de fotos de Londres de 1850 até a Segunda Guerra.

A exposição é pequena, mas vale a viagem até lá. Há imagens da construção do parlamento com a torre do Big Ben ainda inacabada, de um agitadíssimo Piccadilly Circus em 1890, cheio de ônibus de dois andares puxados por cavalos, e retratos de moradores e trabalhadores da cidade.

No site da “Time Out” há uma galeria com algumas das fotos.

“Portrait of London” segue até 12 de agosto.

Encontro com Nigella

No fim da semana passada, a Vogue britânica promoveu seu primeiro “festival”: dois dias de palestras, conversas, encontros de gente da moda e colaboradores da revista. Fui no primeiro dia, a sexta-feira, ver como seria a coisa.

O melhor momento do dia foi, sem dúvida, Nigella Lawson. Linda, charmosa, simpática, ela falou sobre a relação das mulheres com a comida. O bate papo foi conduzido por Kirsty Young, apresentadora da BBC, e passou pelo relacionamento complicado das mulheres com o prazer de comer, o medo de engordar, a pressão da sociedade pelo corpinho de manequim 36.

Tudo muito leve, com comentários inteligentes e muitas vezes engraçados. Nigella fala como quem é muito segura de suas escolhas, mas sem nunca sugerir que aquelas são verdades a serem seguidas por todos.

“Eu me lembro da Elizabeth Hurley falando que tinha que escolher entre o jeans tamanho 6 e o pote de cookies e pensei: ela quer o jeans tamanho 6 e eu quero o pote de cookies – ótimo, nós duas estamos felizes.”

Ela ainda falou coisas muito pertinentes sobre sua necessidade de planejar as próximas refeições e ter sempre comida em casa para isso. Pertinentes porque eu pude dizer pro Tiago que eu não sou a única mulher assim.

“Eu ajo como se fosse uma refugiada. Eu preciso ter suprimentos senão eu entro em pânico”, disse. “Para mim, a fome é uma crise.”

Saí de lá apaixonada pela Nigella. É o tipo de mulher de quem é impossível tirar os olhos. Mas como acordar cedo não tem sido meu forte nos últimos meses, saí de casa com muito sono e esqueci de levar minha câmera para o evento. Parabéns para mim.

Greve no metrô

Começou ontem uma greve no metrô de Londres. Mas não foi nada parecido com as greves no transporte público em São Paulo. É tudo tão organizado que seja a ser engraçado.

A greve atinge só três linhas (a cidade tem onze) entre as 16h e as 19h. Foi anunciada muitos dias antes, para as pessoas se prepararem. E, mesmo nesse horário, chegou a ser prometido que o transporte de passageiros não seria totalmente interrompido.

Eu, brasileira que sou, vim para casa mais cedo. Mesmo tendo a possibilidade de voltar mais tarde de ônibus sem grandes complicações, preferi não enrolar na rua. Imaginei ônibus lotado, trânsito louco, pessoas nervosas, aquela neurose paulistana.

Mas tudo correu tranquilamente e o serviço está normal agora pela manhã, informa o “Evening Standard”.

O transporte em Londres é caro – uma viagem de metrô custa duas libras (R$ 6), subindo para 2,70 libras (mais de R$ 8) nos horários de pico de manhã e no início da noite. Na campanha para a eleição do novo prefeito de Londres, que acontece agora em maio, a diminuição desse valor é uma das grandes promessas.

Alugar apartamento em Londres

Não é difícil alugar apartamento em Londres, mas você precisa ficar atento exatamente ao que quer, precisa e pode pagar, obviamente.  Em Londres, como na maioria dos lugares do mundo, quanto mais perto do centro, mais caro. Portanto, morar nas zonas 1 e 2 é mais caro do que morar em 3, 4 e 5. Mas esteja atento porque a viagem “inter-zonas” de metrô sai mais cara. O que você economizar no aluguel pode acabar pagando em transporte público. Mas é possível morar em um lugar bem pequeno, tipo um estúdio (é tudo no mesmo cômodo, não tem quarto), em um bairro legal, na zona 2, pagando 800 libras por mês, por exemplo.

O site mais utilizado na busca por apartamentos é o Gumtree.com, mas não é a oitava maravilha do mundo como muitos dizem: precisa ficar atento porque há muitos anúncios picaretas (como no Brasil), com lindas fotos sobre apartamentos que não estão disponíveis, usados apenas para fisgar os clientes. Além disso, segundo muitas pessoas dizem (não aconteceu conosco), têm os anúncios de bandidos profissionais, que marcam encontro com pessoas e tomam dinheiro delas antes de mostrar qualquer coisa. De qualquer forma, serve para ter uma base de preço pelos bairros, pelo menos. Ou tentar as primeiras visitas até conhecer uma imobiliária que trabalhe na região em que você quer morar.

Nosso prédio em West Hampstead

Nosso prédio em West Hampstead

Além dos sites, outra forma interessante é andar por ruas e regiões que você gosta e pegar telefones em placas na frente dos prédios.  No nosso caso, depois de algumas visitas a lugares variados, gostamos de West Hampstead, (Noroeste), zona 2 do metrô e resolvemos insistir com uma imobiliária da região até achar algo que realmente nos satisfizesse. Aí valem dois toques: primeiro, tente pesquisar pela internet antes para ter ideia da faixa de preço sobre o lugar que você quer. Segundo: um fator que pode causar estranheza sobre os aluguéis em Londres é que, além das imobiliárias, há os representantes legais dos proprietários. A imobiliária, basicamente, só serve para te mostrar o apartamento e te colocar em contato com estes representantes. É com eles que você trata de pagamento e contrato (até assinam pelo proprietário). Em muitos casos você pode ver anúncio “direto com o proprietário”. Não estranhe. A ideia é óbvia: sai mais barato pois não tem a comissão do intermediário (imobiliária). E fazer uma proposta para a imobiliária não garante nada: os representantes do proprietário já podem ter alugado para outra pessoa e os corretores nada podem fazer. Aconteceu conosco.

Deixar seu telefone em imobiliárias pode ser uma boa forma também. Só esteja pronto para receber uma enxurrada de telefonemas de pessoas perguntando o que você deseja ( tamanho, preço, local) mesmo que você já tenha informado tudo isso quando fez o cadastro lá.

Preços de aluguel

Os preços geralmente são fornecidos por semana, mas não ache que apenas multiplicar por quatro vai dizer exatamente o valor do seu aluguel mensal. Porque alguns meses têm 30 dias, outros, 31. E tem fevereiro, com 28 ou 29 dias. Então é calculada uma média. Por exemplo: se você vê um aluguel de 200 libras por semana, seu aluguel mensal não será 800 libras, mas um pouco mais do que isso, tipo 860 libras. Sempre multiplique por quatro e some mais um pouco pra não ser surpreendido na hora de assinar o contrato.  Além disso, esteja preparado para deixar um depósito cujo valor pode variar. No nosso caso, tivemos que pagar uma soma maior do que um mês de aluguel que só será devolvida quando ao final do contrato. É uma espécie de garantia que eles têm caso você danifique/quebre algo do apartamento.

Nossa rua em West Hampstead

Nossa rua em West Hampstead

Duração dos aluguéis

Em Londres os aluguéis geralmente têm duração mínima de seis meses, o que pode ser bom se você quer/pode ficar pouco tempo, como nós. Existem também os aluguéis com 12 meses de duração e opção de rescisão depois do sexto mês. Se procurar bem você ainda acha locais mais simples em que não se fazem contratos e o pagamento é mês a mês. Mas vale avisar que esta última opção é bastante rara de encontrar. Há também os aluguéis para períodos inferiores a seis meses, os chamados “short lets”. Geralmente são bem mais caros e valem mais para o caso de você ir a Londres em férias.

Pagamento de aluguéis e contas

Se você chega sem emprego, é bem provável que tenha que pagar o contrato todo ou muitos meses adiantados. No nosso caso fizemos um contrato de seis meses e pagamos tudo antes. Na busca fique atento para perguntar se o apartamento está mobiliado (é comum ter tudo principalmente nos pequenos estúdios – “fully furnished” é a expressão) e quais contas vêm incluídas. Prefira os que tiverem todas as contas incluídas, porque não dá para ter noção exata de quanto vai gastar. O sistema é meio bizarro e algumas contas demoram meses a chegar e vem uma paulada de uma vez só. Eletricidade, por exemplo, não é cara. Mas separe dinheiro para a Council Tax, que, a grosso modo, é uma espécie de IPTU. Apenas estudantes em tempo integral não pagam Council Tax. Se o apartamento for pequeno, é praticamente o valor de mais um mês de aluguel no ano. Divida isso por 12 e você terá uma noção de quanto terá a dar por mês para a prefeitura. Você escolhe como quer pagar, qual o melhor dia do mês, etc. Muitos prédios têm máquinas de lavar e secar roupas de uso coletivo. Vimos apartamentos com máquinas novas e de uso gratuito, enquanto outros tinham máquinas extremamente velhas e com preços extorsivos. Mas na maioria deles é preciso pagar pelo uso.  Para evitar surpresas, pergunte sempre.

Manutenção incluída no pacote

Uma vantagem: os tais representantes legais tomam conta dos prédios em todos os sentidos, inclusive, da manutenção. Porque os proprietários não são donos apenas do pequeno cafofo que você habita. Geralmente são donos do prédio inteiro. Então o escritório que os representa resolve tudo: problemas com o chuveiro, água quente, aquecedor, etc. Você liga e eles mandam um funcionário consertar. No nosso caso não tivemos problemas sérios, mas demorou um pouco pra mandarem alguém ver o aquecedor que não funcionava (no inverno londrino está longe de ser um artigo de luxo) e depois disso o tal “radiator” passou a funcionar, mas mal e de maneira intermitente. Como o inverno acabou pouco depois, desistimos de insistir no conserto.

Um dia em Oxford – parte 1

Em um sábado de início de primavera que prometia temperaturas de verão, saímos cedo de casa e fomos para a estação Paddington pegar o trem para Oxford.

Oxford faz parte do Vale do Tâmisa e fica a cerca de 80 quilômetros de Londres. A viagem de trem leva mais ou menos uma hora e de ônibus dá para chegar lá em pouco menos de duas horas.

Radcliffe Camera, em Oxford

Pesquisamos os horários dos trens pelo site National Rail e planejamos pegar o das 9h21, mas deixamos para comprar as passagens na hora. O site te mostra que cada horário tem um preço diferente, variando de 9 a 22 libras, mas na bilheteria a conversa foi outra: pagamos 45 libras em duas passagens de ida e volta que valiam para o dia todo, sem horário específico.

Resultado? Overbooking na ida. Subimos rápido no trem e conseguimos sentar, mas muita gente – inclusive um grupo barulhento de brasileiros – teve que ir em pé o caminho todo.

O principal atrativo de Oxford é a universidade. Ela se divide em mais de 30 faculdades espalhadas por todo o centro. O miolo da cidade é pequeno, todo concentrado entre 5 ou 6 ruas principais que na metade do dia você já vai conhecer bem. Um guia com um mapa do centro é suficiente para se virar.

Chegando lá, a primeira parada foi a Christ Church College, a maior e mais famosa faculdade da universidade. Famosa porque inspirou Lewis Carroll a escrever “Alice no País das Maravilhas” e mais famosa ainda porque serviu de cenário para a saga “Harry Potter”. Por exemplo, o seu salão de jantar – The Great Hall — foi a inspiração para o refeitório de Hogwarts. O salão, no entanto, não foi filmado: o que se vê nos filmes é uma reprodução em estúdio do verdadeiro salão.

Christ Church College, em Oxford

Pátio da Christ Church College, em Oxford, fotografado do corredor lateral já que não é permitido aos visitantes entrar pelo gramado

Mas os fãs de Potter não devem se animar muito: o Great Hall está quase sempre fechado. Ele é muito usado pela faculdade e, nessas ocasiões, é vetada a entrada de visitantes. Eles tentam manter no site oficial uma agenda alertando quando salão estará aberto para visitação, mas não há garantia. Pagamos juntos 10 libras para entrar na faculdade e só pudemos entrar na igreja, que honestamente não tem nada de especial.

Até o pátio da faculdade, com seu gramado perfeito e sua fonte, só pode ser visitado pelo corredor lateral. Seu interior é de uso exclusivo dos estudantes.

O gostinho amargo de enganação que sentimos enquanto passávamos pelo corredor lateral do pátio foi só o primeiro do dia. Nas próximas horas, enfrentamos outras portas fechadas com a sensação de que pagamos para conhecer uma faculdade e só pudemos ver a arquitetura externa das construções e alguns metros quadrados de grama.

Foi assim também na Balliol College. O panfleto entregue na porta quando pagamos 3 libras para entrar discorre sobre a beleza da capela e a antiguidade da biblioteca. Lá dentro, descobrimos que a primeira estava fechada e a segunda era restrita aos alunos. Pelo menos dessa vez o pátio era aberto, pudemos sentar num banco e tomar um pouco de sol enquanto descansávamos as pernas.

Exceção foi a Lincoln College, fundada em 1427 e que, segundo o guia, é a construção mais bem conservada. De fachada discreta e localizada em uma rua secundária, a faculdade estava completamente vazia.

Pátio interno da Lincoln College, em Oxford

Pátio interno da Lincoln College, em Oxford

Para entrar, passamos por um funcionário que disse que podíamos ficar à vontade para visitar o local. Passeamos por três pátios pequenos mas lindamente conservados. Entramos pelas portas, bisbilhotamos tudo o que estava aberto.

O pátio mais ao fundo, florido e silencioso, parecia um mundo muito distante do burburinho de turistas e consumidores das ruas ao redor. Um dos poucos espaços onde foi possível sentir de verdade que estávamos em uma cidade notável, com séculos de história, e não em um parque de diversões.

Outra grande atração da cidade é a Bodleian Library, fundada em 1320. Estava fechada para um evento. Sua sala de leitura é a Radcliffe Camera, uma construção que data da fundação da biblioteca. O prédio redondo, um dos símbolos de Oxford, também é de acesso restrito a estudantes da universidade.

No fim da tarde, cansamos de tanta porta na cara. Pegamos a lista de pubs históricos da cidade e fomos beber. Mas isso fica para um outro post.

Primavera

Os paulistas reclamam sempre da imprevisibilidade do clima na cidade. Pois aqui, nesses dois meses desde que chegamos, a coisa tem sido um pouco pior.

O inverno acabou oficialmente há quase um mês – obrigada! Mas as temperaturas têm oscilado loucamente.

Quando chegamos, no final de fevereiro, os ingleses comemoravam porque fazia um calor incomum para a época – a máxima do dia ali perto dos 15 graus. Semanas depois, os locais foram à loucura quando, durante uma semana, o calor da tarde passou dos 20 graus. Mulheres tomavam sol de biquíni nos parques da cidade. Mas não durou muito e agora caímos para a metade disso.

As chuvas têm sido raras e rápidas. Começam de repente e acabam em questão de minutos. O sol aparece e some com a mesma velocidade. Você olha pela janela antes de sair para saber o que vestir e o que levar e, quando chega na rua, está tudo diferente.

Mas a paisagem está mudando. As árvores começam a ter folhas novamente, os parques estão mais verdinhos e os jardins, cada vez mais coloridos. Hora de comprar uma toalha para piqueniques.

Jardim de tulipas no Hyde Park

Jardim de tulipas no Hyde Park, em Londres, no começo de abril