A eficiência britânica: festival e Jubileu

Vivemos enfrentando problemas e sufocos em qualquer festival que acontece em São Paulo. Filas imensas para comprar comida e bebida, filas para o banheiro, superlotação, atrasos, falta de transporte público para voltar para casa, falta de taxis ou taxis cobrando preços extorsivos, um desses perrengues – ou mais de um deles – acaba sempre aparecendo para estragar a noite.  Sem falar em casos isolados como quando a polícia resolve controlar o público com bombas de efeito moral e spray de pimenta.

No último sábado, fomos ao Field Day Festival, um festival de médio porte realizado no Victoria Park, um parque em um bairro na zona 3 de Londres – não exatamente no centro, mas também não muito afastado.

A atração principal, por coincidência, foi o Franz Ferdinand, cujo show em São Paulo uma semana antes foi “atrapalhado” pela ação da polícia citada ali acima. O festival também tinha Vaccines, Mazzy Star, Beirut e um monte de bandas novas divididas em um palco principal e diversas tendas.

O espaço não era suficiente, os palcos ficavam perto demais uns dos outros e o som vazava bastante. Durante o show do Beirut, no palco principal, dava para ouvir um pouco da barulheira do Sleigh Bells na tenda ao lado. Durante o Mazzy Star, ouvia-se barulho e música eletrônica vindo de todos os lados. Mas, no resto, o festival funcionou.

Havia dois bares enormes para dar conta das muitas e muitas cervejas e cidras que os ingleses bebiam. Para comer, as opções eram das mais variadas, distribuídas entre barracas independentes. Tinha comida mexicana com uma fila com umas 20 pessoas, mas uma porção de outras barracas não tinha fila alguma. E tinha comida portuguesa, vegetariana, hambúrgueres, salsichas e linguiças alemãs, batatas recheadas, churros e bolos para sobremesa.

Na saída, um grande esquema levava todo mundo até dentro do metrô. Quando acabaram os shows, por volta das 23h, apenas uma saída do parque estava aberta e, desde a catraca do evento até esta saída, muitos policiais e funcionários do festival se espalhavam por todos os lados indicando o caminho para a saída.

Ao chegar ao portão, grandes placas indicavam o sentido das duas estações de metrô mais próximas com mais um monte de policiais em volta dando informações e incentivando as pessoas a seguirem logo para o metrô para evitar aglomeração e garantir que a vizinhança conseguisse ter sossego antes da meia-noite.

Seguimos para a estação Mile End. Foi uma caminhada de cerca de 15 minutos em meio a uma multidão exausta e um pouco alcoolizada. Por todo o caminho havia muitos, muitos policiais e funcionários da organização. Em um cruzamento entre a rua que levava a multidão ao metrô e uma avenida movimentada, a polícia controlava o fluxo. Em quase todo o trecho, grades fechavam as calçadas para impedir que as pessoas atravessassem as ruas em qualquer lugar, atrapalhando o trânsito.

Na porta no metrô, a polícia também controlava a travessia da rua. Deixava um bando atravessar e fechava a passagem, abrindo somente quando a entrada da estação estivesse desafogada novamente. Lá dentro, mais policiais fazendo as pessoas se espalharem pela plataforma. Os trens vinham com intervalos de 2 ou 3 minutos. Com essa frequência, nenhum lotava a ponto de ficar insuportável. Voltamos para casa sem aperto.

O único “incidente” que vimos em todo o trajeto do parque ao metrô foi um inglês um pouco feliz demais que pegou um cone de trânsito e começou a cantar nele, como se fosse um megafone. Andou assim por poucos metros, até avistar um policial. Largou o cone na hora, soltou um “sorry, officer” com um sorriso, o policial colocou o negócio no lugar e pronto. Sem reação, sem truculência.

Três dias depois, testemunhamos outra demonstração da eficiência britânica, dessa vez envolvendo muito mais gente e aos olhos do resto do mundo. No último dia das comemorações pelo Jubileu de Diamante – os 60 anos da Beth no trono -, arrastei o Tiago para ver comigo a aparição da família real na sacada do Palácio de Buckingham. Comigo e com mais centenas de milhares de pessoas.

Fomos em cima da hora, os arredores já estavam tomados por famílias com muitas crianças, idosos e até cachorros. Mas, mesmo assim, as estações de metrô estavam todas abertas para que as pessoas conseguissem chegar até lá perto. Mais uma vez, a quantidade de policiais era notável. Parados nas esquinas, andando calmamente no meio da multidão, dando informações com a maior paciência do mundo.

Não conseguimos chegar à The Mall, a avenida que leva ao palácio. Atravessando o parque St James, achamos um telão. A família real já estava lá na sacada dando tchau, os aviões da RAF já estavam passando, ficamos por ali mesmo.

Perto do telão, onde um bom número de pessoas se reunia, havia uma ambulância e banheiros químicos. Foi tudo muito rápido, coisa de dez minutos. As pessoas, mesmo ali longe, levantaram bandeiras, aplaudiram e saudaram a rainha com três vivas, parecendo realmente felizes e orgulhosas. Cada aparição da velhinha no telão causava um frenesi coletivo. Assim que a família real voltou para o interior do palácio, começou a dispersão.

Andamos para longe, procurando uma estação de metrô afastada, e por todo o caminho, muito longe dali, ainda havia policiais. Novamente, na porta do metrô mais próximo, vários policiais organizavam uma fila e controlavam a entrada.

Os jornais ingleses não arriscam dizer o número de pessoas que foram até o palácio nesse dia (não consegui encontrar nenhuma estimativa), mas as fotos aéreas de Buckingham dão uma boa ideia de quanta gente estava por ali. No dia seguinte, o governo comemorou o sucesso do fim de semana garantindo estar pronto para as Olimpíadas. Se depender do que vimos, eles certamente estão.

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