Banheiros de Londres

O turista comum enfrenta o mesmo problema em qualquer lugar do mundo aonde vá: onde encontrar um banheiro no meio do dia. Ele sai do hotel/apartamento pela manhã com uma longa lista de lugares para visitar e coisas para fazer. Passa o dia na rua, andando para lá e para cá, e acaba dependendo de banheiros desconhecidos durante toda a viagem.

Como São Paulo, Londres quase não possui banheiros públicos, obrigando os turistas a recorrer aos toaletes das atrações turísticas, restaurantes e cafés. Depois de alguns meses na cidade, aprende-se aonde ir e não ir.

Os ingleses se destacam em muitos campos sociais e culturais, mas limpeza e higiene não então entre seus pontos fortes. Portanto, não espere encontrar banheiros limpos pelo centro da cidade, mas prometo que nem tudo vai se parecer com o “pior banheiro da Escócia”.

O mais comum na hora do aperto depois daquele suco de laranja do café da manhã é se esgueirar McDonald’s adentro e usar as facilidades sem gastar um centavo. Mas muitas outras pessoas estarão fazendo a mesma coisa que você, portanto saiba que vai enfrentar uma fila. O mesmo acontece no Burguer King, KFC, Pret a Manger e todas essas lanchonetes fast food onde não há controle na entrada e saída de clientes. É uma solução rápida, mas, com todas essas visitas grátis, nenhum banheiro desses estará minimamente limpo.

Em Londres, há numerosos cafés Nero, Costa e Starbucks. Menores e com menos movimento, nem todos oferecem banheiros aos seus clientes e é sempre mais difícil entrar sem ser notado. Como consequência do movimento mais controlado, os banheiros são um pouco menos sórdidos. Talvez seja preciso gastar duas libras em um café ou em um muffin para justificar a ida àquele cantinho da casa. Os muffins de blueberry do Nero são absolutamente deliciosos, então pode até valer a pena.

Se você estiver próximo a um dos grandes museus com entrada gratuita, corra até eles. Eles são sempre bem aceitáveis. Para garantir uma experiência ainda melhor, procure dentro dele uma exposição pouco interessante e ali você encontrará um banheiro vazio e limpíssimo (para os padrões britânicos). No banheiro localizado logo à entrada da National Gallery, na Trafalgar Square, por exemplo, peguei fila. Já no canto grego do British Museum, mesmo perto de um café, só dava eu (quase tão bom quanto o banheiro impecável de um canto esquecido do Louvre onde senti como se fosse a primeira pessoa a pisar o dia todo).

Se o dia é dia de compras, é bom saber que as grandes lojas de roupa –H&M,Topshop, Zara, Primark- não têm banheiros. Já as lojas de departamentos têm. No caso da Selfridges, na Oxford Street, eles ficam beeeem escondidos, mas procurando dá para achar.

Mas foi a Marks & Spencer, rede britânica gigante, que me salvou muitas vezes nesses meses que passei andando pela cidade e mesmo nos outros cantos da Grã-Bretanha que visitei. A rede é conhecida tanto por vender roupas de senhoras de respeito quanto pelas boas comidas prontas e é aí, na seção de alimentos, que ficam os banheiros. Eles só não existem nas lojas muito pequenas, que são realmente poucas. No geral, procure pelo Food Hall e eles estarão lá.

Churchill Museum e Cabinet War Rooms

Winston Churchill ganhou um museu em Londres em 2005, em Westminster, bem perto de onde foi seu gabinete como primeiro-ministro, e que funciona no anexo dos Cabinet War Rooms, um pequeno complexo de salas que poderia ser resumido como o bunker onde a intelligentsia britânica coordenava suas ações na Segunda Guerra Mundial. Visita obrigatória para quem gosta de história e política, o local foi fechado após o final do conflito, em 1945, e reaberto pelo governo britânico apenas no final dos anos 70. Para ver tudo isso custa um pouco caro: 16 libras (13,20 para estudantes), mas vale a pena. Acredite.

Pra começar, o guia de áudio, cobrado em muitos lugares, já faz parte do pacote, o que dá a sensação que o preço nem é tão salgado. Mas não tem opção em língua portuguesa, então é bom que você consiga se virar pelo menos em espanhol.  Eles juram manter o bunker como era, mas claramente alguns objetos, como roupas de cama, não têm quase 70 anos. De qualquer forma nota-se que os móveis são da época e a história contida dentro do lugar vale a visita.

Um dos pontos altos são os vídeos com relatos de diversos ex-funcionários do governo britânico contando como era o dia-a-dia no local. Para quem se acha workaholic porque não larga o Blackberry ou o iPhone no século XXI é uma boa forma de rever conceitos. Trabalhar 16, 18 horas por dia era normal, revezando turnos, comendo muito mal, dormindo em lugares apertados e, claro, sem respirar direito ou ver a luz do dia. Uma ex-funcionária relata que precisou pedir dispensa depois de alguns anos, pois estava ficando doente. Ela acredita que era a única não-fumante de todo o lugar.

Uma grande guerra exige muito de todos os envolvidos e ter Winston Churchill como chefe também não ajudava quando o assunto era descanso. Dizia que todos (incluía-se) deveriam trabalhar até caírem, exaustos. Algumas vezes ele mesmo não ia embora: tinha quarto e sala exclusivos no bunker, mas passava seu dia-a-dia em um escritório que funcionava ali do lado e só ia para o “esconderijo” quando havia iminente ameaça nazista.

Alguns cômodos têm tempero especial: a sala secreta em que Churchill telefonava para Franklin Roosevelt é uma delas. Nem os funcionários da época sabiam que havia um telefone lá dentro. Acreditavam ser um banheiro. Hoje um boneco de cera está no lugar do chanceler e é possível escutar o teor de um telefonema para o ex-presidente americano durante a guerra.

A cabine telefônica secreta de Churchill

A cabine telefônica secreta de Churchill

Só as Cabinet War Rooms já valeriam a visita e o preço, mas o museu sobre o controverso político merece ser visto com calma. E isso pode levar horas, mesmo sendo um pequeno anexo. A quantidade de informações é absurda, principalmente na linha do tempo que funciona por meio de touch screen no centro do salão e conta os mais variados fatos profissionais e pessoais do ex-chanceler. Outro ponto que merece uma parada: uma tela (também sensível ao toque) relata suas frases célebres, a maioria delas alfinetadas em seus pares. Não à toa, colecionou inimigos por onde passou. Uma deputada certa vez disse no Parlamento inglês que, se fosse mulher de Churchill (então deputado), colocaria veneno no seu café da manhã. Obviamente a resposta foi imediata: “se eu fosse seu marido, eu tomaria o veneno.”

Textos, objetos pessoais e depoimentos de ex-funcionários explicam de maneira bem didática quem foi Churchill e porque escreveu seu lugar na história. Claro que o tom é elogioso, mas não chega a incomodar. Talvez porque seja impossível tentar pintar Churchill como santo mesmo décadas após sua morte. De qualquer forma, há uma entrevista em vídeo em que uma ex-secretária diz que, apesar da fama de beberrão, ele nem bebia tanto assim. Mas quem se importa com isso agora?

Churchill War Rooms
Clive Steps
King Charles Street
Metrô: Westminster
Preço: 16 libras (13,20 estudantes)

Mais informações:  http://www.iwm.org.uk/visits/churchill-war-rooms

Vergonha

Em frente ao Imperial War Museum existe um pequeno jardim chamado Tibetan Peace Garden, inaugurado pelo Dalai Lama em 1999.

Tentamos ir ao museu na quinta-feira, estávamos no bairro com um tempinho de sobra e resolvemos dar uma espiada rápida. Por azar, ele tinha sido fechado mais cedo.

Saímos passeando pelo jardim ao redor do museu e descobrimos por acaso esse espaço. Pequenas flores brancas cobriam o gramado, um cachorro sem coleira passeava feliz por ali. Fora ele e sua dona silenciosa, estava tudo tranquilo.

Tibetan Peace Garden

Tibetan Peace Garden em frente ao Imperial War Museum

No centro do jardim, pequenos bancos de pedra formam um círculo ao redor de uma peça redonda de bronze. Fomos até lá e nos sentamos para “sentir a paz”.

Não durou muito. Em alguns minutos, chegou um trio de brasileiros – dois homens e uma mulher. Falando alto. “Vamos fazer umas fotos!”

Foto aqui, foto ali, dedinhos fazendo chifrinho em uma, paz e amor na outra. A nossa paz, no entanto, já tinha ido embora. Até que um dos caras resolveu fazer uma foto diferente. Foi para o meio do espaço, subiu na escultura central do jardim e ficou lá, em pé, fazendo pose.

EM PÉ!

Eu não sabia o que era aquela peça, mas era óbvio que não era apenas um palco para mais uma fotinho pro Facebook.

Descobri agora que se trata de uma mandala Kalachakra. “Apenas olhar para essa mandala confere um pouco de sua bênção e seu poder de transformação”, diz o site Tibet Foundation.

Como adeptos da não-violência que o lugar prega, levantamos e saímos de lá em silêncio.

Essa não foi a primeira vez que um grupo de brasileiros me envergonhou aqui com demonstrações de desrespeito e falta de educação. Mas foi, sem dúvida, a pior.

Etiqueta: guarda-chuva molhado

Me ensinaram desde pequena que guarda-chuva, quando molhado, deve ser guardado dentro de um saco plástico para não sair pingando por aí. De uns tempos para cá, os lugares mais simpáticos de São Paulo passaram até a ter os práticos saquinhos na porta para facilitar a vida das pessoas sempre que chove.

Aqui em Londres não tem nada disso. Choveu e molhou o guarda-chuva? Não se incomode, pode andar com ele pingando que tá tudo bem. As pessoas entram com eles molhados no metrô, nos mercados, nos museus.

Hoje fomos a uma exposição de fotos antigas de Londres em um museu bem longe do centro. O lugar estava bem tranquilo, com meia dúzia de pessoas. Um rapaz chegou a abrir o seu guarda-chuva no meio da exposição e deixá-lo lá secando enquanto ele olhava as fotos. E ninguém estranhou.

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Foto de Charles Wilson mostra Piccadilly Circus em 1890

Foto de Charles Wilson mostra Piccadilly Circus em 1890

Há dias não para de chover nessa cidade e a previsão é de que continue assim por mais algumas semanas. Os museus estão lotados, os cafés, abarrotados. É preciso encontrar coisas legais para fazer em lugares fechados, mas fugindo das atrações mais óbvias.

Fomos então ao Wandsworth Museum ver a exposição “Portrait of London”, uma série de fotos de Londres de 1850 até a Segunda Guerra.

A exposição é pequena, mas vale a viagem até lá. Há imagens da construção do parlamento com a torre do Big Ben ainda inacabada, de um agitadíssimo Piccadilly Circus em 1890, cheio de ônibus de dois andares puxados por cavalos, e retratos de moradores e trabalhadores da cidade.

No site da “Time Out” há uma galeria com algumas das fotos.

“Portrait of London” segue até 12 de agosto.

Damien Hirst é pop

Começou ontem na Tate Modern uma retrospectiva da carreira de Damien Hirst e a cobertura intensa da mídia nas últimas semanas tem provado que aqui ele é muito pop.

Damien Hirst na capa do "The Times" de ontem

Damien Hirst na capa do "The Times" de ontem

Desde que chegamos, em fevereiro, tornou-se impossível não saber que vinha aí uma grande exposição de Hirst. Do gratuito “Evening Stardard” ao mais sério “The Times”, fala-se sobre a exposição, os preparativos, a trajetória do artista, as polêmicas em torno do seu trabalho.

Já em 11 de março o “Observer” publicava dois pôsteres e uma longa entrevista com Hirst com o título puxando por uma de suas frases: “Eu ainda acredito que a arte é mais poderosa que dinheiro”. E dinheiro é um dos principais tópicos aqui quando se fala sobre ele.

Nesta segunda, antecedendo a abertura da mostra, um dos cinco canais abertos da TV inglesa, o Channel 4, dedicou uma hora de seu horário nobre a Hirst.

Damien Hirst na capa do "Guardian" de ontem

Damien Hirst na capa do "Guardian" de ontem

Ontem a exposição foi capa dos jornais “The Times” e “Guardian”. No primeiro, o destaque era a peça à venda por 36 mil libras na lojinha de lembranças da exposição. No segundo, a chamada mais simples lembrava apenas que a mostra estava começando.

Para facilitar o acesso de londrinos e turistas e aumentar a popularidade de Hirst, a entrada para a retrospectiva é barata: 14 libras. Um ingresso para o cinema no fim de semana custa só um pouco menos do que isso, em torno de 10 libras. Para entrar no cafonérrimo museu de cera Madame Tussaud’s paga-se 30 libras por pessoa.

A mostra foi inaugurada às vésperas da Páscoa, que aqui é um fim de semana prolongado de quatro dias (é feriado na sexta e também na segunda). Quatro dias de muito ócio para os moradores que não saírem da cidade. Muita coisa estará fechada. A Tate não. Difícil acreditar que tenha sido coincidência.

A exposição vai até dia 9 de setembro.