Manchester em dois dias

Manchester é laranja. Saindo da estação de trem Manchester Piccadilly após quase três horas de viagem essa foi a primeira impressão que a cidade me passou. Suas construções, históricas ou contemporâneas, impõem-se à paisagem em tons fortes de vermelho, um pouco de marrom e algum amarelo. Na visão geral, é laranja.

Manchester

Manchester

Manchester está localizada no noroeste da Inglaterra, bem próxima a Liverpool (para onde já tínhamos ido algumas semanas antes), e foi a primeira parada de uma viagem de uma semana para o norte da Grã-Bretanha.

De cara, a cidade mostra que é mais animada e urbana que Liverpool, mesmo sendo apenas um domingo. É mais musical também, com grandes lojas de instrumentos e – pelo que pudemos ver nessa passagem curta –  uma agitada vida noturna, com festas e pequenos shows acontecendo todas as noites. Nada muito diferente do que se espera de uma região que deu ao mundo bandas tão diversas quanto Joy Division e Happy Mondays, Smiths e Stone Roses, New Order e Oasis.

A viagem de trem custou 25 libras por pessoa, saiu de Londres às 8h10 e terminou no fim da manhã. Com as mochilas nas costas, passeamos pelo centro da cidade, caímos por acaso no Gay Village, deserto e com ar de ressaca, e almoçamos em um pub barato e honesto. No geral, gasta-se menos para comer lá do que em Londres.

Após deixar as malas no hotel, contrariando qualquer lógica, voltamos à estação e pegamos outro trem, mas não fomos longe. O destino era Macclesfield, cidade de 50 mil habitantes que faz parte da Grande Manchester. O motivo: visitar o túmulo de Ian Curtis e a casa onde ele se matou.

Curtis cresceu em Macclesfield, continuou morando ali após se casar e mesmo depois que começou a fazer sucesso com o Joy Division. Em 1980, ele se enforcou em sua casa em Barton Street e foi enterrado ali perto, no Macclesfield Cemetery.

Túmulo de Ian Curtis, em Macclesfield

Túmulo de Ian Curtis, em Macclesfield

A viagem de trem dura cerca de 20 minutos e pode ter preços variados. Macclesfield não é o destino final de nenhum trem, é apenas uma parada, então é preciso escolher a viagem a prestar atenção em qual trem pegar. O nosso tinha Londres como destino final, mas esse trecho custou apenas cerca de 3 libras por pessoa.

Da estação de trem, seguimos primeiro para o cemitério por avenidas movimentadas em um passeio desagradável, não tinha mais ninguém andando a pé por aqueles cantos. Chegamos ao local sem indicações de onde estava o túmulo de Ian, contando que o cemitério seria pequeno e que encontraríamos a informação lá. Ledo engano. O lugar é imenso e não havia ninguém lá, nem um funcionário sequer. Nada.

Entramos pelo cemitério já desanimados, procurando pelo túmulo sem qualquer rumo e sem muita esperança de encontrá-lo. E depois de uns 10 minutos procurando, ele apareceu na nossa frente de repente, sem aviso, e uma tristeza enorme me pegou de surpresa no mesmo segundo. Ele se colocou diante de nós como a morte sem glamour, sem poesia. É apenas uma pedra rente ao chão, igual em tamanho a todas as outras ao redor. Como inscrição, o nome de Curtis, a data de sua morte e a frase “Love will tear us apart”. Sobre ele, moedas, fotos, bijuterias e um maço de cigarros. Me arrependi de não ter levado flores para deixá-lo um pouco mais bonito. Agradeci a Ian pelas músicas que ele fez, lamentei as que ele não fez e saí de lá com um nó na garganta.

O túmulo está no “plot M” do cemitério, é a única indicação que consigo dar para quem quiser visitá-lo.

Seguimos por ruas residenciais estreitas e desertas por cerca de 20 minutos até o número 77 da Barton Street. A casa de esquina, local onde ele se enforcou, tem novos moradores. Um carro estava parado em frente, as janelas estavam fechadas com cortinas e não existe número na porta – obviamente para espantar os fãs que, como nós, fazem visitas indesejadas.

De volta a Manchester, encaramos um jantar satisfatório no restaurante Pesto, uma rede que oferece comida italiana em pequenas porções para dividir (matei um pouco da saudade de bolinhos de arroz com uma porção gostosa de arancinis) e seguimos para o hotel. Tínhamos acordado muito cedo para pegar o trem e não sobrou disposição para conhecer a vida noturna da cidade.

The Haçienda Apartments, em Manchester

The Haçienda Apartments, em Manchester

O dia seguinte, uma segunda-feira, foi de passeios curtos pelo centro da cidade. Manchester possui diversos museus e prédios históricos, mas não fomos lá para isso. Até entramos rapidamente na Catedral de Manchester e circulamos, também sem nos alongar muito, no interior do belo prédio da prefeitura, inaugurado em 1877 (ambos com entrada gratuita). Almoçamos ali dentro, em um pequeno café e restaurante com enormes poltronas confortáveis, comida quente e preços justos. Meu caldo de cogumelos e queijo Stilton caiu bem, já que o clima lá ainda estava frio em pleno verão.

Além dessas duas construções que o guia nos mandava conhecer, fomos atrás dos nossos próprios pontos obrigatórios. A esquina da Whitworth Street com a Albion Street, onde costumava existir o clube Haçienda e hoje há o prédio residencial The Haçienda Apartments; o Free Trade Hall, onde os Sex Pistols fizeram o show que mudou a cena musical da cidade em 1977; o Northern Quarter, bairro mais musical e boêmio da cidade repleto de lojas de CD e vinil.

Em alguns pontos, onde brilham prédios extremamente modernos e de arquitetura ousada, a cidade se mostra menos laranja. Por outro lado, o principal meio de transporte no centro da cidade é o antigo bonde elétrico. Não existe metrô.

À noite, fomos ao Castle Hotel no mesmo Northern Quarter ouvir música e tomar cerveja. Em seu site, o pequeno pub diz que existe desde 1776 e que entrou definitivamente para a história de Manchester quando John Peel conduziu ali uma “lendária” entrevista com Ian Curtis. Um show da cantora folk Emily and the Woods estava na agenda. Tudo pareceu bom.

O lugar tem um clima amistoso e animado, mas é bastante pequeno. O balcão, forrado de azulejos vitorianos, tem não mais do que quatro metros. Em frente, duas mesas pequenas deixam o local cheio. Atrás do balcão, há outro ambiente com mesas e cadeiras (e um piano e uma lareira só para decoração, puro charme) e, mais ao fundo, uma sala fechada para shows, sem lugar para sentar. Cansados de andar o dia todo, acabamos sentando com nossos pints e deixamos o show de lado.

Na manhã seguinte, partimos rumo ao norte.

Northern Quarter – ruas ao redor de Oldham Street
The Haçienda / The Haçienda Apartments – Whitworth Street com Albion Street
Macclesfield Cemetery – Prestbury Road, Macclesfield
Casa de Ian Curtis – 77 Barton Street, Macclesfield
Casa de infância de Morrissey (que não tivemos tempo de conhecer) – 384 Kings Road
Castle Hotel – 66 Oldham Street

Anúncios